LITERATURA BRASILEIRA
Textos literrios em meio eletrnico
Antes a rocha Tapia, de Machado de Assis


Edio referncia: http://www2.uol.com.br/machadodeassis 
Publicado originalmente em Gazeta de Notcias 1887 

Como  que me achei ali em cima? Era um pedao de telhado, inclinado, velho, 
estreitinho, com cinco palmos de muro por trs. No sei se fui ali buscar alguma coisa; 
parece que sim, mas qualquer que ela fosse, tinha cado ou voado, j no estava comigo. 
Eu  que fiquei ali no alto, sozinho, sem nenhum meio de voltar abaixo. 
Comeara a entender que era pesadelo. J l vo alguns anos. A rua ou estrada em que 
se achava aquela construo era deserta. Eu, do alto, olhava para todos os lados sem 
descobrir sombra de homem. Nada que me salvasse; pau nem corda. Ia aflito de um para 
outro lado, vagaroso, cauteloso, porque as telhas eram antigas, e tambm porque o 
menor descuido far-me-ia escorregar e ir ao cho. Continuava a olhar ao longe, a ver se 
aparecia um salvador; olhava tambm para baixo, mas a idia de dar um pulo era 
impossvel; a altura era grande, a morte certa. 
De repente, sem saber de onde tinham vindo, vi em baixo algumas pessoas, em pequeno 
nmero, andando, umas da direita, outras da esquerda. Bradei de cima  que passava 
mais perto:

  senhor! acuda-me! 
Mas o sujeito no ouviu nada, e foi andando. Bradei a outro e outro; todos iam passando 
sem ouvir a minha voz. Eu, parado, cosido ao muro, gritava mais alto, como um trovo. O 
temor ia crescendo, a vertigem comeava; e eu gritava que me acudissem, que me 
salvassem a vida, pela escada, corda, um pau, pedia um lenol, ao menos, que me 
apanhasse na queda. Tudo era vo. Das pessoas que passavam s restavam trs, depois 
duas, depois uma. Bradei a essa ltima com todas as foras que me restavam: 
 Acuda! acuda! 
Era um rapaz, vestido de novo, que ia andando e mirando as botas e as calas. No me 
ouviu, continuou a andar, e desapareceu. 
Ficando s, nem por isso cessei de gritar. No via ningum, mas via o perigo. A aflio 
era j insuportvel, o terror chegara ao paroxismo... Olhava para baixo, olhava para longe, 
bradava que me acudissem, e tinha a cabea tonta e os cabelos em p... No sei se 
cheguei a cair; de repente, achei-me na cama acordado. 
Respirei  larga, com o sentimento da pessoa que sai de um pesadelo. Mas aqui deu-se 
um fenmeno particular; livre de perigo, entrei a sabore-lo. Em verdade, tivera alguns 
minutos ou segundos de sensaes extraordinrias; vivi de puro terror, vertigem e 
desespero, entre a vida e a morte, como uma peteca entre as mos destes dois mistrios. 
A certeza, porm, de que tinha sido sonho dava agora outro aspecto ao perigo, e trazia  
alma o desejo vago de achar-me nele outra vez. Que tinha, se era sonho? 
Ia assim pensando, com os olhos fechados, meio adormecido; no esquecera as 
circunstncias do pesadelo, e a certeza de que no chegaria a cair acendeu de todo o 
desejo de achar-me outra vez no alto do muro, desamparado e aterrado. Ento apertei 
muito os olhos para no despertar de todo, e para que a imaginao no tivesse tempo de 
passar a outra ordem de vises. 
Dormi logo. Os sonhos vieram vindo, aos pedaos, aqui uma voz, ali um perfil, grupos de 
gente, de casas, um morro, gs, sol, trinta mil coisas confusas, que se cosiam e 
descosiam. De repente vi um telhado, lembrei-me do outro, e como dormira com a 
esperana de reatar o pesadelo, tive uma sensao misturada de gosto e pavor. Era o 
telhado de uma casa; a casa tinha uma janela;  janela estava um homem; este homem, 
cumprimentou-me risonho, abriu a porta, fez-me entrar, fechou a porta outra vez e meteu 

a chave no bolso. 

 Que  isto? perguntei-lhe.
  para que nos no incomodem, acudiu ele risonho. 
Contou-me depois que trazia um livro entre mos, tinha uma demanda e era candidato a 
um lugar de deputado: trs matrias infinitas. Falou-me do livro, trezentas pginas, com 
citaes, notas, apndices; referiu-me a doutrina, o mtodo, o estilo, leu-me trs 
captulos. Gabei-os, leu-me mais quatro. Depois, enrolando o manuscrito, disse-me que 
previa as crticas e objees; declarou quais eram e refutou-as uma por uma. 
Eu, sentado, afiava o ouvido, a ver se aparecia algum; pedia a Deus um salteador ou a 
justia, que arrombasse a porta. Ele, se falou em justia, foi para contar-me a demanda, 
que era uma ladroeira do adversrio, mas havia de venc-lo a todo custo. No me ocultou 
nada; ouvi o motivo, e todos os trmites da causa, com anedotas pelo meio, uma do 
escrivo que estava vendido ao adversrio, outra de um procurador, as conversaescom os juzes, trs acrdos e os respectivos fundamentos.  fora de pleitear, o homem 
conhecia muito texto, decretos, leis, ordenaes, citava os livros e os pargrafos, 
salpicava tudo de perdigotos latinos. As vezes, falava andando, para descrever o terreno 
 era uma questo de terras , aqui o rio, descendo por ali, pegando com o outro mais 
abaixo; deste lado as terras de Fulano, daquele as de Sicrano... Uma ladroeira clara; que 
me parecia? 
 Que sim. 
Enxugou a testa, e passou  candidatura. Era legtima; no negava que pudesse haver 
outras aceitveis; mas a dele era a mais legtima. Tinha servios ao partido, no era a 
qualquer coisa, no vinha pedir esmola de votos. E contava os servios prestados em 
vinte anos de lutas eleitorais, luta de imprensa, apoio aos amigos, obedincia aos chefes. 
E isso no se premiava? Devia ceder o seu lugar a filhos? Leu a circular, tinha trs 
pginas apenas; com os comentrios verbais, sete. E era a um homem destes que 
queriam deter o passo? Podiam intrig-lo; ele sabia que o estavam intrigando, choviam 
cartas annimas... Que chovessem! Podiam vasculhar no passado dele, no achariam 
nada, nada mais que uma vida pura, e, modstia  parte, um modelo de excelentes 
qualidades. Comeou pobre, muito pobre; se tinha alguma coisa era graas ao trabalho e 
 economia  as duas alavancas do progresso. 
Uma s dessas velhas alavancas que ali estivesse bastava para deitar a porta abaixo; 
mas nem uma nem outra, era s ele, que prosseguia, dizendo-me tudo o que era, o que 
no era, o que seria, e o que teria sido e o que viria a ser  um Hrcules, que limparia aestrebaria de ugias , um varo forte, que no pedia mais que tempo e justia. 
Fizessem-lhe justia, dando-lhe votos, e ele se incumbiria do resto. E o resto foi ainda 
muito mais do que pensei... Eu, abatido, olhava para a porta, e a porta calada, 
impenetrvel, no me dava a menor esperana. Lasciati ogni speranza... 
No, c est mais que a esperana; a realidade deu outra vez comigo acordado, na 
cama. Era ainda noite alta; mas nem por isso tentei, como da primeira vez, conciliar o 
sono. Fui ler para no dormir. Por qu? Um homem, um livro, uma demanda, uma 
candidatura, por que  que temi reav-los, se ia antes, de cara alegre, meter-me outra vez 
no telhado em que...? 
Leitor, a razo  simples. Cuido que h na vida em perigo um sabor particular e atrativo; 
mas na pacincia em perigo no h nada. A gente recorda-se de um abismo com prazer; 
no se pode recordar de um maante sem pavor. Antes a rocha Tarpia que um autor de 
m nota. 
Ncleo de Pesquisas em Informtica, Literatura e Lingstica 


